Havia uma cidade do interior que respirava futebol. Não daqueles lugares onde os estádios são monumentos de concreto e cifras milionárias, mas daquelas cidades onde o clube é patrimônio afetivo, assunto de esquina, tema de roda de tereré e motivo de orgulho para quem nasceu e cresceu por ali.
Quando o time conquistou a vaga para disputar a Copa do Brasil, a notícia correu mais rápido que sinal de rádio em dia de tempestade. Era um feito histórico. A chance de colocar o nome da cidade no mapa do futebol nacional.
Mas havia algo ainda maior no horizonte.
O Palmeiras.
Não qualquer adversário. O Palmeiras, justamente o time do coração do prefeito, que além de gestor municipal era também um dos mais apaixonados torcedores daquele clube sul-mato-grossense. Só de imaginar o Verdão desembarcando na cidade, os olhos brilhavam.
Claro que não era tão simples.
Naqueles tempos, os confrontos não surgiam apenas da sorte de um globo girando na sede da CBF. Havia condicionantes, articulações, telefonemas e uma boa dose da velha política do futebol brasileiro. Quem tinha influência, tinha caminho. Quem não tinha, assistia.
Foi então que a federação entrou em campo.
Um emissário foi enviado para conversar com o prefeito. Homem experiente, acostumado aos corredores onde decisões importantes eram tomadas longe dos microfones. Sentou, conversou, alinhou interesses e saiu com a impressão de que tudo estava encaminhado.
A família que mandava no futebol estadual acreditava ter a situação sob controle. Afinal, conhecia os atalhos, sabia quem cumprimentar e qual porta bater em cada andar da entidade máxima do futebol nacional.
Mas futebol, assim como a vida, raramente respeita roteiros.
No meio do caminho apareceu um empresário.
Esperto.
Muito esperto.
Daqueles que enxergam oportunidade onde outros enxergam paixão.
Ele surgiu prometendo facilidades, lucros maiores, organização moderna e resultados rápidos. E, como acontece em tantas histórias, suas palavras soaram mais agradáveis do que os avisos dos velhos cartolas.
Foi o suficiente.
A Federação acabou escanteada.
A família que comandava o futebol estadual foi colocada de lado.
E o negócio passou para as mãos dos chamados “forasteiros da bola”.
Quando questionados, o prefeito e o presidente do clube foram diretos: era o melhor para o time. Diziam não confiar nos dirigentes da federação. Seguiram adiante convencidos de que haviam encontrado parceiros mais eficientes.
A cidade começou a sonhar.
O estádio parecia pequeno diante da expectativa.
Comerciantes faziam contas.
Dirigentes falavam em renda recorde.
Torcedores imaginavam o verde palmeirense misturado às cores locais.
Havia até quem já estivesse gastando um dinheiro que ainda nem tinha recebido.
O Palmeiras viria.
Era questão de tempo.
Mas chegou o dia da divulgação oficial dos confrontos.
Silêncio.
Depois surpresa.
Em seguida, decepção.
O Palmeiras foi sorteado contra um clube do Nordeste.
E o representante sul-mato-grossense acabou diante de um modesto adversário do Paraná.
Nada de casa cheia.
Nada de televisão nacional em peso.
Nada de festa histórica.
Conta-se que o prefeito, indignado, pegou o telefone e ligou para o emissário da federação.
Queria explicações.
Do outro lado da linha ouviu uma resposta simples, quase pedagógica:
— Quem tinha força para trazer o Palmeiras era a família do futebol. O empresário escolhido por vocês tinha influência suficiente apenas para conseguir esse adversário que apareceu.
A ligação terminou.
O sonho também.
E a cidade aprendeu uma daquelas lições que o futebol ensina sem precisar de treinador.
Porque existem negócios que se constroem com dinheiro.
Outros, com confiança.
E alguns dependem de influência, relacionamento e palavra cumprida.
Misturar tudo isso sem entender o peso de cada peça costuma produzir resultados inesperados.
No fim das contas, restou apenas a frase que o velho Russo repetia sempre que alguém confundia esperteza com sabedoria:
— Quem planta capim não colhe alface.
E, naquela Copa do Brasil, a colheita foi exatamente do tamanho da semente que escolheram plantar.