
A Festa Junina de Dourados faz parte deste segundo grupo. Não é apenas um evento no calendário. É uma tradição que atravessa gerações, reúne famílias, movimenta a economia e ajuda a contar a história de uma cidade que aprendeu a crescer sem esquecer suas raízes.
Quem tem mais de quarenta anos certamente guarda alguma lembrança da antiga festa realizada na Praça Antônio João. Era ali, no coração de Dourados, que os festejos juninos ganhavam vida. As bandeirinhas coloridas cortavam o céu das noites frias de junho, o cheiro de quentão e milho cozido se misturava ao da pipoca, enquanto a população ocupava cada espaço disponível para celebrar uma das manifestações culturais mais populares do Brasil.
Mas a festa cresceu.
E cresceu tanto que a Praça Antônio João, palco de tantas histórias, acabou ficando pequena para a multidão que fazia questão de participar. O sucesso do evento exigiu mudanças. Vieram então os tempos de itinerância. A festa passou pelo Ginásio Ulisses Guimarães, encontrou abrigo no Estádio Frédis Saldivar e experimentou diferentes formatos ao longo das décadas.
Como acontece com quem procura uma nova casa, houve acertos, adaptações e aprendizados.
Até que chegou ao Centro de Convenções Antônio Tonanni.
E talvez tenha encontrado ali seu melhor endereço.
Se o saudoso Antônio Tonanni estivesse entre nós, provavelmente reclamaria do barulho, do movimento e da agitação. Mas, depois de observar milhares de pessoas ocupando aquele espaço com alegria, certamente reconheceria que a escolha foi acertada. Afinal, poucos destinos poderiam ser mais nobres para um espaço público do que servir de palco para encontros, memórias e celebrações.
A Festa Junina de Dourados também mudou com o passar do tempo. Mudaram os espaços, a estrutura, a tecnologia e até os sabores.
As tradicionais barracas das entidades assistenciais e dos clubes de serviço continuam lá, mantendo viva uma parte importante da história do evento. Durante décadas, passar pela barraca do CTG ou do Clube Nipônico era quase uma obrigação social. Eram pontos de encontro, locais para rever amigos, colocar a conversa em dia e fortalecer os laços comunitários.
Hoje elas dividem espaço com os modernos food trucks, que trouxeram novos aromas e sabores para a festa. O velho e respeitado espetinho com mandioca continua firme, mas agora divide a preferência popular com shawarma, hambúrguer artesanal, tapioca gourmet e tantas outras opções que refletem a diversidade cultural da cidade.
E isso não é ruim.
Pelo contrário.
As tradições sobrevivem justamente porque conseguem dialogar com o presente sem perder sua essência.
No fundo, pouco importa se alguém prefere quentão ou cappuccino, pamonha ou tapioca recheada. O importante é que todos encontram seu lugar na festa.
Porque a verdadeira atração nunca foi a comida.
Sempre foi o povo.
E lá estavam eles mais uma vez. Douradenses de nascimento, douradenses de coração, visitantes da região e gente de todas as tribos ocupando o Centro de Convenções. Crianças correndo entre as barracas, jovens registrando tudo com os celulares, casais aproveitando o friozinho de junho e famílias inteiras celebrando o simples prazer de estarem juntas.
Entre uma dança e outra, o prefeito Marçal Filho circulava pelo evento. Cumprimentou moradores, conversou com expositores, arriscou alguns passos e, fiel ao personagem que o acompanha há décadas, não deixou escapar seu tradicional “alô você”. Afinal, na política, assim como nas festas populares, o futuro costuma chegar mais rápido do que se imagina. E 2028 já aparece logo ali na curva do calendário.
Mas, para além das inevitáveis leituras políticas, a verdade é que o sucesso da festa deste ano deixa uma lição importante.
Cidades precisam de obras, de infraestrutura, de saúde e educação. Mas precisam também de cultura, convivência e lazer.
Precisam de momentos em que as pessoas possam simplesmente se encontrar.
A Festa Junina de Dourados gera empregos temporários, movimenta pequenos empreendedores, fortalece entidades assistenciais, ajuda clubes de serviço a reforçarem seus caixas e cria oportunidades para dezenas de famílias complementarem a renda.
Mas seu maior patrimônio talvez seja outro.
Ela cria pertencimento.
Em tempos de redes sociais, telas e rotinas cada vez mais aceleradas, reunir milhares de pessoas em torno de uma tradição é quase um ato de resistência.
Por isso, o sucesso desta edição aumenta a responsabilidade da equipe da Secretaria Municipal de Cultura. O desafio para o próximo ano será grande. Mas o resultado alcançado demonstra que, quando há planejamento, competência, apoio institucional e respeito às tradições, é possível entregar muito mais do que um evento.
É possível fazer as pessoas felizes.
E poucas missões são tão nobres quanto essa.
Afinal, depois de quase meio século de história, a Festa Junina de Dourados continua fazendo exatamente aquilo que sempre fez de melhor: reunir a cidade em torno de suas próprias memórias enquanto constrói novas lembranças para as próximas gerações.
Em tempo, foi a primeira festa junina da minha neta Maria Antônia. Que venham dezenas dela