Entretenimento A bronca do século
A troca das fitas e a saga do pequeno mexicano
Quase apanhei de um dono de circo na ilha de edição da TV
10/06/2026 08h03
Por: Fábio Dorta

Era o finalzinho da década de 1990. Acho que 98 ou 99. Um sábado pela manhã cheguei para trabalhar na TV Dourados, retransmissora do SBT. Como tinha muito serviço acumulado no departamento de jornalismo cheguei por volta das 7h da manhã, enquanto a maioria da turma chegava as 7h30, quando as equipes começavam a se organizar para as reportagens de rua (que a gente chama de externas).

Eis que me chega um homem com cerca de 1,40m de altura, com um enorme bigode e nada simpático, com uma fita Betacam (fita magnética de vídeo e equipamentos de gravação de 1/2 polegada, criada pela Sony em 1982. Por décadas, tornou-se o padrão da indústria de televisão e cinema para captação, edição e transmissão, antes da transição para os arquivos digitais).

Ele era dono de um circo que tinha acabado de chegar na cidade e fechado um contrato de publicidade com a emissora. Ninguém do departamento comercial, nem do operacional havia chegado. Sobrou então pra que eu o atendesse. Eu disse: “nós não trabalhamos com o sistema Betacam”. Ele então enfiou a mão na sacola e tirou uma fita de outro sistema o Super VHS. Eu disse: “Também não dá. Nós trabalhamos com equipamentos U-MATIC para gravações e exibição”.

Ele então, muito p da vida disse: “que TV de merda essa que só tem equipamento antigo. Eu vou dar um jeito de trazer a propaganda em U-MATIC, se não conseguir vou cancelar o contrato”. E foi embora bravo, entrando no carro de som todo estampado com a marca do circo.

Fui então trabalhar e, por volta das 9h da manhã cheguei na ilha de edição (local onde as reportagens feitas na externa são editadas para serem levadas ao ar nos telejornais) e disse aos colegas: “hoje cedo veio aqui um baixinho muito mal-educado e me deu uma bronca porque a gente não opera com Beta. E o F.D.P. disse ainda que a TV era uma merda”.

O problema é que o cara tinha voltado com a fita U-MATIC e, como estava atrás de uma mesa alta, eu, por motivos óbvios, não o enxerguei. Com sangue nos olhos e mais bravo ainda, ele me encarou e disse: “¿Hijo de puta no. Soy un cliente, soy tu jefe, ayudo a pagar tu salario (filho da puta não, eu sou um cliente e ajudo a pagar seu salário)”. E foi embora.

Nem precisa dizer que virei a piada interna do ano na empresa. E, graças a Deus, nunca mais vi o cara (que aliás, não era muito menor que eu, né?).