
O aumento dos homicídios registrados nos últimos dias em Campo Grande, muitos deles relacionados ao tráfico de drogas, tem provocado temor na população e gerado grande intranquilidade, especialmente nos bairros onde os crimes ocorreram. Em um único fim de semana, foram contabilizados cinco homicídios. Diante desse cenário, ressurge um antigo debate: a necessidade de uma presença mais efetiva das forças policiais nas comunidades, especialmente por meio dos chamados postos policiais.
Recentemente, durante reunião realizada no Bairro Noroeste, lideranças comunitárias cobraram dos órgãos de segurança pública a implantação de um posto policial na região, evidenciando que essa demanda permanece viva nas expectativas e no imaginário da população.
Ao resgatar uma antiga decisão judicial sobre o funcionamento dos postos policiais da Polícia Militar, a então juíza da Justiça Militar, Marilza Lúcia Fortes, observou que o policial destacado para essas instalações, em determinadas circunstâncias, assemelhava-se a um “orelhão”. Sem viatura ou recursos operacionais adequados, não conseguia atender diretamente às ocorrências das quais tomava conhecimento, limitando-se a acionar o telefone de emergência 190. Sua saída do posto somente era permitida em situações excepcionais, como flagrantes envolvendo risco iminente à vida.
Apesar da reconhecida capacidade de resposta das forças policiais estaduais — evidenciada pelos elevados índices de esclarecimento de homicídios, pela maioria dos indicadores criminais abaixo da média nacional e pela apreensão de aproximadamente 300 toneladas de drogas somente neste ano — é preciso reconhecer que desafios pontuais persistem e exigem permanente reflexão.
A filosofia do policiamento comunitário foi amplamente difundida pelo Governo Federal em décadas passadas. Embora tenha perdido protagonismo em alguns momentos, jamais foi abandonada pelas Polícias Militares, permanecendo como importante estratégia de aproximação entre a instituição policial e a sociedade.
Corporações como as de São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul continuam adotando essa filosofia. No caso paulista, destacam-se os postos policiais e as bases comunitárias de segurança. Enquanto os postos priorizam o policiamento ostensivo em locais estratégicos, as bases comunitárias concentram-se na prevenção e no fortalecimento dos vínculos com a população, por meio do policiamento a pé, em bicicletas e até mesmo em estruturas móveis.
Um dos principais argumentos contrários à implantação de postos policiais fixos reside na necessidade de destinar efetivo para sua manutenção, reduzindo, consequentemente, o número de policiais disponíveis para o patrulhamento ostensivo nas ruas.
É importante destacar que, atualmente, predomina o chamado policiamento baseado em evidências, modelo fundamentado em pesquisas científicas e em decisões estratégicas orientadas por dados. Essa metodologia prioriza a atuação proativa em áreas de maior incidência criminal — os chamados pontos quentes —, além da avaliação permanente dos resultados e da integração entre estatísticas, inteligência policial e experiência prática dos profissionais que atuam diariamente nas ruas.
Por outro lado, iniciativas como feiras comunitárias, ruas de lazer e atividades que promovam a ocupação democrática dos espaços públicos, especialmente quando acompanhadas de infraestrutura adequada e iluminação eficiente, contribuem para fortalecer a convivência social, ampliar o sentimento de pertencimento e cidadania e, consequentemente, melhorar a segurança.
Na percepção dos cidadãos, entretanto, a existência de um posto policial atuante e proativo nas proximidades de suas residências representa um importante fator de tranquilidade e confiança, reforçando a sensação de segurança e a presença do Estado na comunidade.
Talvez a solução esteja justamente na conciliação entre os anseios da população e as possibilidades operacionais das corporações. Nesse contexto, bases móveis instaladas em locais com maior incidência criminal, em horários estrategicamente definidos, podem representar uma alternativa eficiente. Além de dispensarem custos permanentes com manutenção predial, evitam a fixação desnecessária de efetivo em um único ponto.
Recentemente, o comando do 9º Batalhão da Polícia Militar demonstrou visão estratégica ao instalar uma base policial no Shopping Campo Grande por meio de parceria público-privada. A estrutura conta com sistema de monitoramento capaz de atender tanto o empreendimento quanto as vias adjacentes, em uma região marcada pelo intenso fluxo de pessoas, veículos e usuários do transporte coletivo. Experiências semelhantes podem servir de inspiração para outras localidades.
Buscando ampliar a interação entre sociedade e poder público, a Secretaria de Justiça e Segurança Pública instituiu 80 Conselhos Comunitários de Segurança. Formados por representantes da comunidade e das forças policiais, esses colegiados constituem importantes canais de interlocução para a identificação de demandas e a construção de soluções voltadas ao aprimoramento dos serviços prestados à população.
Na discussão sobre a eventual implantação de postos policiais nos bairros, os Conselhos Comunitários assumem papel relevante. Também deve ser considerada a importância da ocupação de espaços estratégicos e da visibilidade institucional das forças de segurança. Afinal, a geopolítica ensina há muito tempo que espaço é poder.
Somado a isso, não se pode ignorar o sentimento de medo que afeta parcela significativa da população brasileira, realidade apontada de forma recorrente por pesquisas e estudos sobre segurança pública.
Em síntese, a discussão sobre postos policiais não deve ser tratada sob uma perspectiva simplista ou meramente simbólica. O desafio consiste em encontrar um ponto de equilíbrio entre a eficiência operacional, orientada por dados e evidências, e a legítima expectativa da população de perceber a presença do Estado em seu cotidiano. Investir em segurança pública é investir na qualidade de vida, na cidadania, no desenvolvimento econômico e, sobretudo, na confiança que une o cidadão às instituições responsáveis por sua proteção. (ALIRIO VILLASANTI ROMERO - Coronel da Reserva Remunerada da PMMS, formado pela Academia da Polícia Militar do RS, Bacharel em Ciências Jurídicas pela UCDB, tem diversas pós-graduações na área de Segurança Publica, Gestão Pública e Planejamento Estratégico)